MÁQUINAS SOCIOPATAS

Há muito tempo que existe, ao menos no mundo literário e cinematográfico, um olhar cauteloso para um futuro dominado pelas máquinas. Robôs idênticos aos humanos em tudo, exceto nos sentimentos.

Nesses cenários, as máquinas fazem tudo o que as pessoas fazem de forma melhor e mais eficiente. São mais fortes, mais inteligentes, mais rápidas. Seus sentidos são bem mais aguçados, não cometem erros, não julgam, não sofrem, não sentem dor.

As máquinas são programadas para uma determinada tarefa e não há dúvidas internas ou críticas externas que as impeçam de realizá-la. Máquinas não questionam, não são regidas pela ética ou pela empatia, não são influenciadas por opiniões ou moda.

Não têm valores, sentimentalismos, arrependimentos, moral, bom senso, carência ou autoestima. Máquinas executam. Simples assim.

Podem cometer enganos ou falhar em seu objetivo devido a um estrago no hardware, um curto-circuito, avarias que estão fora de seu controle. Podem cometer equívocos, também, se forem programadas para tal.

Com a inteligência artificial, podem ser até capazes de diferenciar o bem do mal, escolher qual caminho seguir, aprender com os erros e fingir emoções. Não têm, porém, e nunca terão, consciência. Nenhuma consciência, nenhuma empatia, nenhum sentimento nobre como amor, compreensão, compaixão.

Penso, então, nos sociopatas. Sociopatas não têm nenhum transtorno mental. Não são doentes mentais. Sabem a diferença entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, porém, descartam todos os conceitos que vão contra seus interesses. A única regra que seguem é a da satisfação própria, não importa a quem atinjam ou o que devastam.

Sociopatas não são, necessariamente, seriais killers. Há muito mais sociopatas ao nosso redor do que imaginamos. Ninguém sai impune ao conviver com eles, mas na maioria das vezes, a perda é financeira e não letal. De qualquer forma, abalam nossa confiança, arranham nossa autoestima, prejudicam nosso psiquismo.

Sociopatas são lógicos, estudam, até mesmo socializam, quando é de seu interesse. Podem ser simpáticos, carismáticos, sedutores, tudo dentro do que é programado para o sucesso de suas metas. Quando pegos em uma mentira ou descobertos em um ato ilícito, sempre se justificam, utilizando argumentos inteligentes que o transformam em vítima, conquistando a simpatia e piedade de quem ousou acusá-los.

Obviamente não chegam a se equiparar às máquinas, em termos de rapidez, força, infalibilidade, mas em matéria de ludibriar e seduzir, são infinitamente melhores.

Nenhuma culpa ou qualquer sombra de arrependimento se interpõem entre seus desejos e suas realizações. Nenhum amor pelo outro bloqueia seu caminho. Sua grande desvantagem em relação às máquinas é o medo das consequências. Para si, unicamente.

Máquinas não temem. Sociopatas, sim. Temem ser pegos, castigados, privados de sua liberdade e, até mesmo, de sua vida. Esse é o único empecilho para a execução de seus planos.

No filme “O exterminador do futuro”, o robô com as características físicas similares às humanas não sentia culpa ou arrependimento, não era movido por amor ou ódio e não deixava que nada, absolutamente nada impedisse o sucesso de sua missão. Era um perfeito sociopata.

No filme “Alien, o 8º passageiro”, um dos tripulantes tinha a missão de levar um espécime alienígena para a terra, ainda que todos da nave fossem destruídos. Esse tripulante era um robô infiltrado no meio dos desbravadores do espaço. Nada o impediria de executar sua missão. Não tinha consciência, ética ou sentimentos que pudessem atrapalhá-lo.

Assim como as máquinas, sociopatas não têm empatia, não sentem culpa, não se arrependem.

Assim como as máquinas, sociopatas não são regidos pela ética ou moral.

Assim como as máquinas, sociopatas seguem as instruções que o levarão a um determinado resultado, sem deixar que nada os desvie do caminho.

Assim como as máquinas, sociopatas podem sofrer curto-circuito, expressados pela raiva quando não conseguem o que querem.

Fico, então, imaginando um futuro repleto de máquinas. Pessoas cercadas por máquinas e máquinas. Na aparência de simples robôs ou já tão avançados na tecnologia que se assemelham aos humanos até nos mínimos detalhes físicos.

Obviamente não teremos motivo para temê-las. Não nos farão mal, a não ser que sejam programadas para tal.

No entanto, estaremos lado a lado com dispositivos que nunca nos amarão, tampouco sentirão empatia por nossas dores ou angústias, nem demonstrarão carinho ao perceberem que não estamos em nossos melhores dias. Os “seres- robôs” jamais nos darão um abraço sem nenhum motivo, somente por sermos quem somos. Jamais entenderão de verdade nossos anseios, nossos medos, nossas necessidades intrínsecas.

Como será esse relacionamento, quando não pudermos mais distinguir quem é robô e quem não é apenas pela aparência? Quanto tempo levaremos para descobrir que aquela pessoa que parece tão amiga e gentil, na verdade não tem nenhum sentimento, nenhuma afeição verdadeira?

Quanto tempo pessoas que conviveram com sociopatas demoraram para descobrir a mesma coisa?

Sabemos que no futuro será possível criar uma máquina muito semelhante ao ser humano e, inclusive, programá-la para ter reações parecidas com as que um ser humano teria, como ciúme, raiva, alegria, tristeza, dependendo da situação. Mas seria somente isso: reações parecidas e programadas. Nada verdadeiro.

Seria como vivermos cercados de sociopatas medicados que não conseguiriam mais causar nenhum mal à sociedade. Ainda assim, sociopatas.

Estamos preparados para esse futuro?

 

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